Estação paleolítica de Camposancos - galiciasuroeste

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Estação paleolítica de Camposancos

Arquivo 2020
Separata da Revista Brotéria
Série mensal, vol. I, fasc. I
Caminha,1925
 
Estação paleolítica de Camposancos
(Pontevedra-Espanha)   
por Joaquim Fontes
 
Durante uma curta estada em Pasaje, aldeia espanhola fronteiriça a Caminha e como esta na margem do Rio Minho, aonde tinha ido para estudar, entre outras, as gravuras rupestres do Monte de Santa Tecla, pude descobrir a estação paleolítica que serve de motivo a este trabalho.


 
Há tempos já, o jesuíta portugués Rev. P. A. da Cruz encontrou perto do Colégio, conhecido entre nós pelo Colégio de La Guardia, várias pedras de quartzite grosseiramente talhadas, que lhe pareceram ter sido utilizadas pelo Homem. Uma dessas pedras e mais outras duas encontradas pelo Rev. P. Luisier estavam guardadas no museu de ciências naturais que os jesuítas portugueses criaram no Colégio del Pasaje, onde me foram mostradas quando da minha visita a este museu. Reconheci-lhes o trabalho intencional e pareceram-me utensilios paleolíticos. Resolveu-se fazer uma pesquisa metódica dos arredores do Colégio e guiado pelo P. Luisier que dizia ter visto essas pedras talhadas num caminho que vem da pequenina povoação de Bairro de Saa à estrada de Pasaje-La Guardia, fácil me foi achar o local onde se encontram com relativa abundancia, os instrumentos paleolíticos. Aparecem na verdade neste caminho muitos utensílios, e a explicação deste caso deve-se ao facto de, na ocasião do amanho das terras que ladeiam essa azinhaga, os camponeses trazerem à superficie essas pedras com os instrumentos agricolas, e, para limparem as suas courelas de calhaus, atiram-nos para aqui quando estão perto do caminho, porque, se estão mais afastados, vão então colocá-los nos muros vedatórios das propiedades. A' superficie do terreno, poucos instrumentos encontrámos, mas neste caminho e sobre os muros, fez-se farta colheita; isto fez-nos prever que eles deviam estar enterrados no terreno. A confirmação dêste facto tivemo-la pouco depois, ao percorrer as barreiras da estrada que vai de Camposancos a La Guardia, onde na verdade encontrádos enterrados alguns instrumentos. E' primeira estação paleolítica que se conhece na Galiza[1].
 
Ali, naquele local, à margem do rio, viveu uma tribo humana durante o quaternário antigo, le da sua existência restam-nos os seus utensilios soterrados nas aluviões do Minho.
 
As nossas pesquisas foram breves, mas, apesar disso, proveitosas. E porém necessário estudar, melhor do que o pudemos fazer, este local; os arqueólogos espanhóis a quem a Sciencia e Espanha tanto devem e o jesuíta portugués e distinto arqueólogo, Rev. P. Jalhay, deverão explorar mais detidamente esta estação. Aqui fica a notícia do local, a descrição da indústria que nos foi possível recolher, bem como os problemas que ela suscita.
 
Os instrumentos da estação de Camposancos são de um talhe muitíssimo grosseiro. Feitos de calhaus rolados de quartzite e sílex que o Minho trouxe de longe e depositou nas suas margens, devem pertencer ao paleolítico antigo (chellense). São coups-de-poing (ponteagudos e circulares), discos, núcleos e grosseiros raspadores, bem patinados, de arestas um pouco gastas pelo uso e pelo tempo. Não se nota nestes instrumentos o intuito de fazer um utensilio mais ou menos elegante; em todas as peças colhidas em Camposancos, o Homem que os féz teve só a preocupação do fim a que eram destinados.
 
A-pesar de na rica estação do Casal do Monte (arredores de Lisboa) se terem colhido muitos instrumentos de tipo chellense, raros são aqueles tão grosseiramente trabalhados como os da estação galega; no entanto, notam-se grandes analogias e há mesmo peças destes dois locais absolutamente idénticas.
 
Em Espanha e Portugal teem-se encontrado outras estações de uma indústria semelhante.
En Torralba (Soria[2]) Laguna de la Janda[3] Puente Mocho[4] encontraram-se instrumentos idénticos aos de Camposancos. Breuil na bacia do Giadiana[5] e provincia de Cádiz, entre Castelar e Moraima[6], achou a mesma industria, e, nun seu trabalho refere-se a outros locais aínda inéditos onde há estações semelhantes. O mesmo arqueólogo descobriu en Portugal em Arronches, instrumentos paleolíticos cujo taIhe é idéntico ao dos utensílios de Camposancos. Ainda no nosso país, àlém da estação de Casal do Monte e suas congéneres dos arredores de Lisboa[7], temos nas Caldas da Rainha (S.to dor) , na Mealhada, arredores do Porto, Viana do Castelo e ainda em Arcos de Val-de-Vez (inéditos)[8] , estações que pertencem ao mesmo ciclo industrial. No sul da França, no Museu de Angoulême, vi também utensílios vários de quartzite e silex semelhantes ao deste tipo, e Breuil cita mais os de Dax, Bayonne e Toulouse[9].
 
Hoje há já dados suficientes para pensar, depois dos descobrimentos do chellense africano e sobretudo do Sahará, que esta indústria veio de Africa para a Europa pela Itália e Peninsu Ibérica, mais muito especialmente por esta, de aí a grande importancia que teem estes achados tanto no nosso país como no reino vizinho. Camposancos vem-nos demonstrar que chegou também a Galiza essa mesma fase industrial.
 
Descrição da indústria
 

   
Fig 1- Grande coup-de-poing de quartzite leito, feito de um calhau rolado. Talhe muito grosseiro, à grands eclats, em  grande extensão da face figurada; a outra, bem como a base do instrumento é a superficie rolada do calhau. A pesar do talhe ser feito só numa das faces, o artista peleolítico conseguiu obter nesta peçz, por golpes hábilmente dados, un bordo em zig-zag. Sinais de utilização nos bordos e parte superior do coup-de-poing. As arestas están um pouco apagadas pela erosão. Dimensões: 0,m12X0,m105X0,m065.
 
Este tipo é bastante raro nas estações portugueses. Assim no Casal do Monte, a mais rica de todas estas, entre 155 cups-de-poing, unicamente 5 apresentam essa característica -o talhe só numa das faces. Bourlon, que escavou à caverna đe Moustier, encontrou na camada oitava (acheullense) alguns coups-de-poing deste tipo. No entanto o grosseiro e as características do trabalho deste templar assim como dos utensílios colhidos em Camposancos, fazem-nos anțes admitir para ele uma maior idade (chellense).
 
Fig. 2- Coup-de-poing de quartzite, ponteagudo. O trabalho desta peça é mais cuidado que o da anteriormente descrita. E' feita de um calhau rolado, de que existe na base e em quási toda a outra face do instrumento a superficie natural deste. A punta partiu-se e a fractura é antiga. Bordos em ligeiro zigzag, com nítidos vestígios de utilização. Dimensões: 0,m085X0,m09X0,m037.
 

  
Fig. 3- Esta peça é tambem de quartzite. A base é a superficie natural do calhau, assim como grande parte da face representada na gravura Talhe grosseiro, só a punta foi mais cuidadosamente trabalhada. As reduzidas dimensões deste instrumento fazem com que os bordos, quando se faz a sua preensão, possam ser dificilmente usados e na verdade é a ponta que tem mais vestígios de utilização. Dimensões: 0,m085X0,m085X0,m04.
 
Fig.4- Coup-de-poing discoidal ou arredondado. Nesta gravura representa-se um tipo vulgar em Camposancos, a descrição que se vai fazer deste utensílio é a mesma que faríamos para todos os outros ali coligidos. O Homem quaternário colhia um calhau rolado, achaptado, quási circular, e num dos bordos, por golpes alternados dum lado e doutro da pedra, levantava uma série de lascas de maneira a obter um bardo em zig-zag; quando parem algum desses golpes não dava o resultado desejado, uma segunda pancada mais ligeira e dada mais perto do bordo, levantava outra lasca mais pequena e assim êste se tornava mais sinuoso. O resto do instrumento é a superfície natural do seixo rolado, o que permite uma forte preensibilidade. O bordo tem muitos vestigios de utilização. E' uma peza gresseira, mas para o fin que se tinha em vista, feita com um espírito de utilidade indiscutivel. E' um utensilio não raro nas estações portuguesas.
 

  
Fig. 5- E' um tipo de instrumentos que não encontramos descrito nas monografias que neste momento consultamos, mas que se nota também em 3 peças de Casal do Monte, únicas conhecidas -até hoje no nosso país (fig 6), A um calhau rolado mais ou menos em forma de leque e que se adelgaça bruscamente por duas chanfraduras Interais para a outra extremidade de maneira que de uma boa apreensão, talhou-se a extremidade superior (a mais alar gada) de um lado e outro, de modo que se obtenha um forte e cortante bordo em zig zag. Se o trabalho é grosseiro, pois que se raduz a talhar a pedra como quem aguça um pau, não se pode deixar de admirar a maneira como foi concebido este instrumento. A escolha da forma do seixo é bem feliz, pois as duas chanfraduras laterais permitem não só unha boa preensibilidade –é um forte cabo- como o alargamento brusco da outra extermidade proíbe, quando da sua utilização, que o instrumento escorregue na mão. O ter-se deixado em quase tódo o utensilio a superficie do calhau rolado, é também uma idea feliz, pois devendo servir estes instrumentos para dar fortíssimas pancadas, se se tivesse desbastado a superficie natural, a mão magoar-se hia.
Não podemos deixar de pensar, ao ver este instrumento, no machado neolítico; esta peça é o seu natural antepassado. Deveria servir como o machado, para esmagar e cortar materiais resistentes. E' de quartzite e foi muito usádo. Dimensões: 0,m13X0,m115X0,m05
 

Fig. 8 e 9- Nas fig. 7, 8 e 9 representam-se instrumentos idénticos, o primeiro do Casal do Monte, os outros de Camposancos. Só o bordo direito foi trabalhado como se fosse um raspador. A maior parte da face figurada e toda a posterior é a superfície arredondada e lisa do seixo. Breuil descobriu em Arronches um instrumento análogo[10].
 

 
Não queremos deixar de pôr em paralelo estas peças e as hachas de mano musterienses de Cueva Morin[11] e Castillo[12]
 
E’ mesmo tipo de instrumentos, só a técnica variou. Enquanto os daquelas grutas são feitos sôbrer grandes lascas intencionalmente levantadas dos núcleos, deixando-se-lhes intacta a face que tem o bulbo de percussão e trabalhando-se-lhes a outra de maneira obter-se um bordo cortante, nos grosseiros instrumentos de Camposancos onde o Homem não tinha chegado a tal progresso industrial, faz um utensílio semelhante de calhaus rolados, achatados, trabalhando só um bordo (fig. 9). Noutras peças foram dois os bordos trabalhados (fig. 8) ou mesmo três bordos (fig. 10). Êste timo tipo é curioso porque faz lembrar vagamente na sua forma um gigantesco grattoir caréét. Dimeasões: fig. 8. = 0,m105X0.m09X0,m055; fig. 9= 0,m105X0,m09X0,m04; fig. 10= 0,m087X0,m095X0,m046
 

 
Fig. 11 e 12- Raspadores de quartzite muito usados. Talhe na face figurada, a outra é lisa com o bulbo de percussão Retoque grosseiro em ambos os bordos. O da fig 11 é de bordo circular e só um deles tem retoque e sinais de utilização, no outro, não trabalhado, está a superfície natural do calhau. O da fig. 12 é triangular e ambos os bordos foram utilizados. Dimensões: fig. 11= 0,m10x0,m085X0,m045; fig-12= 0,m075X0,m06X0,m023.
 

Fig. 13- Disco de quartzite muito trabalhado na face figurada, a outra é a superficie de um calhao rolado muito arredondado.
 
Fig 14- Núcleo de silex. E' uma linda peça. O seu aparecimento faz-nos pensar numa série de instrumentos de mais reduzidas dimensões, de que não trouxemos senão o exemplar da fig. 12.
 
Tais são os únicos vestígios que encontramos dêsses Homens que em épocas muito recuadas habitaram a linda terra da Galiza, á beira de um rio que lhes ministrava tarta colheita de matéria prima para a confecção dos seus rudes utensílios, em face duma das mais lindas paisagens peninsulares que conhecemos.
 
São os mais velhos pergaminhos duma região rica em história, em arte e em belezas naturais[13].
 
Joaquim Fontes
Caminha, 1925
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[1] H. Obermaier. Impresiones de un viaje prehistórico por Galicia, Orense, 1923
[2] H. Breuil. La station paléolithique ancienne d’Arronches (Portalegre). O Archeologo Português, vol. XXV, 1920; H. Obermaier. El hombre fósil. Madrid, 1916
[3] E Hernández Pacheco. Las tierras negras del extremo sur de España y sus yacimientos paleolíticos. Madrid, 1915
[4] J. Cabré P. Wernert. El paleolítico inferior de Puente Mocho. Madrid, 1916.
[5] Breuil. Glanes paleolithiques anciennes dans le bassin du Guadiana. L'Anthropologie, vol. XXVIII, 1917 Breuil.
[6] Breuil.La station, paléolithique ancienne d'Arronches (Portalegre). O Arch, Port., vol. XXIV, 1920, Stations chelennes de la Province de Cadix, Institut Français d'Anthropologie, 20 de Maio de 1914
[7] Ibidem, ibidem
[8] J.Fontes. O Homem fóssil em Portugal, Lisboa, 1923.
[9] Alves Pereira. Industries lithiques sur les rives de la lagune de Obidos, Bulletin de la Société Portugaise des Sciences Naturelles, vol VII, Lisboa, 1916
[10] Station paléolithique ancienne d'Arronches. O Arch Port, etc                                      
[11] Conde de la Vega Del Sella El paleolítico ide Cueva Morin (Santander) y notas para la climatologia cuaternaria. Madrid, 1921.
[12] O Obermaier, El Hombre fósil. Madrid, 1916
[13] Os desenhos que iluatram êste trabalho sãe do Sr. Varela Aldemira, a quen aqui manifestamos o nosso recoñhecemento, excepto o mapa que é devido ao Rev. P. E. Jalhay. Todas as figuras do texto (1-14) estão reduzidas a metade do tamnho natural.
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